
Ao som da vida oiço o silencio deste novo mundo que me rodeia, vejo o dia escondido entre o manto tenebroso desta noite de Fevereiro, vejo as estrelas brilharem como diamantes em bruto na mais longínqua gruta da mente humana, assim sei que esses olhares que tocam os meus de raspão, estão a consumir o meu tempo de espera, um jogo de presenças que transformam momentos em pedras da calçada, fazendo os meus dias passarem devagar, tornando o meu mundo num momento, e transformando-me numa sombra sozinha, a espera que o relógio bata as horas exactas para se estilhaçar em pedaços nas mãos cansadas de sentirem a vida passar entre os dedos, com a pele seca e gasta dos dias passados a espera que batessem a porta.
O tempo corre sobre as ruas vazias nesta noite escura, este mundo nunca girou em torno de ti, ele não pára e a minha vida também não.
Nesta noite, as nuvens parecem resvalar do céu e as ruas estão submergidas sob uma lagoa de neblina ardente que faz pingar os termómetros nas paredes.
Procuro uma voz de poeta para acalmar o frio que sinto.
Apercebi-me que são duas da manhã, pelo menos aqui dentro do meu quarto,
lá fora, é possível que ainda não seja tão tarde, ou não tenha dado hora nenhuma, ou ainda seja cedo lá fora e aqui dentro o tempo não exista.
Este é o preço a pagar por cada noite em branco, escrevo para não sentir o tempo a passar, para não me ouvir respirar, mas para me sentir viva, escrevo para te fazer perceber que te consigo transformar em palavras.
Escrevo porque não sei o que pensar, assim caminho pela estrada infinita das palavras, e adormeço acordada, aprendo a voar, e quando abrir os olhos já é de dia.
Até amanhã.